No “Diário do Ano da Peste”, Daniel Defoe – mais conhecido como autor de Robinson Crusoé – narra em tom jornalístico surpreendentemente moderno o último grande surto da Peste Bubônica que atingiu Londres em 1666. Um dos panos de fundo do relato é como a calamidade atingiu um país extremamente dividido – em especial entre os partidos da monarquia restaurada e da República que acabava de ser derrubada –, no qual destacavam-se as disputas religiosas e políticas e a oposição à impopular guerra contra a Holanda. Os efetivos desmobilizados desta guerra, por sinal, provavelmente foram os principais vetores iniciais da epidemia.

Ao longo da severa crise criada pela epidemia, mesmo quando o governo ruiu com a fuga para o campo da maior parte dos altos oficiais, produziu-se uma reunificação da população. Aos poucos, os charlatões que proliferaram no início da Peste foram morrendo ou fugindo, o conhecimento sobre os mecanismos da Peste foram sendo melhor conhecidos pelos profissionais da saúde, superando as teorias da transmissão – embora nosso urbanismo tupiniquim continuasse a acreditar nisto 250 anos depois –, e em um caso relatado por Defoe até mesmo distinguindo o ciclo de transmissão correto reconhecendo o rato como vetor.

A qualidade do relato de Defoe nos deixa muitas lições para a construção de políticas integradas em um dos grandes objetivos da Conferência Habitat III, a produção da Cidade Resiliente. Em paralelo com a capacidade de prever e resistir aos efeitos das Mudanças Climáticas, a Conferência também previu a necessidade de criar protocolos eficientes para que as cidades resistam ao risco de grandes pandemias, produzidas pelo aumento da pressão humana sobre o meio ambiente – que gera riscos de novas doenças pela mutação de agentes patogênicos que infestam espécies silvestres e pela integração global que faz com que as doenças se disseminem com rapidez pelo mundo todo – como no caso presente.

O adequado enfrentamento do problema que vivemos com esta epidemia não virá das soluções mágicas dos charlatões, mas, pelo contrário, da disseminação de informação correta e precisa. É de se admirar que, em plena Era da Informação, boa parte do esforço das autoridades de saúde tenha de ser direcionado a combater as fake news que surgem a cada dia, colocando a população em risco. Assim, o primeiro papel daqueles que exercem mandatos públicos é contribuir para a divulgação de informações precisas de fontes seguras. Aqueles que pescam em águas turvas tentando aproveitar-se dos boatos certamente acabarão como os charlatões descritos por Defoe, mesmo que em um primeiro momento possam ter vantagens.

Restrições de circulação e de atividades que mexem com nossa rotina nunca são populares, mas mesmo sendo medidas duras são absolutamente necessárias para reduzir a contaminação. Sem elas a propagação exponencial da doença levaria o sistema de saúde ao colapso pela incapacidade física de atender aos pacientes. Assim, a segunda tarefa do homem público comprometido com a efetiva segurança da população é buscar acalmar a todos, reforçar a necessidade das políticas de isolamento e contenção, mesmo quando isto não é popular. A intensa circulação que ainda existe, em especial na periferia, é um problema real que tem de ser enfrentado com rapidez e eficiência para que os resultados não sejam desastrosos.

No relato de Defoe o autor distingue dois tipos de autoridades: aquelas que ficaram em Londres para tentar ajudar a cidade a enfrentar o problema e aquelas que fugiram. Digno de nota que a conduta dos altos oficiais que fugiram desmoralizaram a monarquia restaurada e prepararam o terreno para a Revolução Gloriosa anos depois. Ficar, é claro, não significa transformar-se em um vetor do vírus, espalhando-o por todo lugar, mas sim tomar as necessárias precauções, inclusive para fortalecer a necessidade das políticas de isolamento apontadas. A presença necessária manifesta-se principalmente pelas ações.

É neste sentido que temos buscado, a partir da nossa rede de contatos, criar redes de solidariedade para buscar apoio aos segmentos mais vulneráveis, parcerias para atenuar os efeitos da epidemia, em especial na economia, porque a cidade tem de sobreviver também economicamente à catástrofe, cobrando empenho e fiscalizando a adequação aos protocolos de enfrentamento da crise.

O teste real é sempre mais duro do que aquele estabelecido no papel, assim o presente enfrentamento da epidemia também é uma oportunidade para aperfeiçoar nossa política quanto ao assunto, porque pandemais se tornarão cada vez mais comuns. Então é necessário observar, contar, encontrar problemas e buscar soluções para a consolidação de um protocolo efetivo que nos ajude nesta e nas futuras crises.

Sem tentar se aproveitar da crise para disputas políticas, é necessário também não ser leniente com as falhas e ineficiências do poder público em todos os níveis, que podem causar centenas ou milhares de mortes. Enfim, é o momento para testarmos toda a nossa capacidade de enfrentar os problemas com seriedade, mesmo quando isto exige muito esforço, ao invés de colocar a vida das pessoas em risco por oportunismo barato.

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