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A educação é um elemento central de qualquer desenvolvimento que se busque no futuro, seja ele social, econômico ou político. Só ela é capaz de dar real sustentabilidade a qualquer projeto. Contudo, ainda há um longo e árduo caminho para a construção da educação que nosso futuro precisa. Este desafio começa em ultrapassar a própria fronteira da educação como tem sido vista.

Há mais de 10 anos estruturamos um projeto que visava interligar as rotinas de diversos espaços públicos – equipamentos esportivos, clubes, praças, áreas verdes, unidades de saúde, centros culturais – tendo como centro as escolas públicas. Uma das linhas de atuação era criar percursos seguros e estimulantes para que as crianças, com a jornada ampliada, pudessem participar de atividades diversas nas proximidades das escolas, ampliando tanto o alcance dos currículos quanto a utilização destes equipamentos e construindo uma noção mais profunda de espaço público a ser apropriado por elas.

Incompreendido à época, por conta de certa visão compartimentalizada de cada segmento, pela inusitada inovação de propor que as crianças voltassem a fazer aquilo que fizeram por décadas indo à escola à pé e pela incapacidade de ver que a ideia era complementar à implantação de novos CEUS e não um substituto a estes equipamentos, o projeto não avançou salvo a instalação de alguns clube-escolas – protótipo inovador mas limitado da ideia.

Uma década depois, o conceito de “Território Educador” cuja essência já estava contida na visão que orientou o projeto finalmente é reconhecido como um breakthrough capaz de garantir um efeito significativo na educação, em especial para a primeira infância. O reconhecimento de que as situações que estimulam o aprendizado estão, literalmente, em todo caminho e em todo lugar ao invés de uma visão reacionária que as aprisiona só na sala de aula é uma daquelas ideias tão óbvias que exigem uma visão aberta para serem enxergadas.

Finalmente começando a ser utilizadas como ferramentas de uma política pública, a implantação de territórios educadores começou a ser implementada e, nos próximos anos, três novos grandes pilotos – todos eles centrados em CEUS na periferia aos quais outros equipamentos e a comunidade do entorno serão conectados através de caminhos seguros. Em todos há participação significativa na concepção e governança de entidades da sociedade civil e empresas preocupadas com a educação na primeira infância, em todos eles se busca superar a compartimentação de equipamentos e temas. Ainda que o Plano de Metas do prefeito Bruno Covas tenha estipulado a implantação de 10 territórios educadores até o fim do ano que vem, a concretização desses 3 – debatidos no Conselho Municipal de Política Urbana – não deixa de ser um avanço.

A superação de limites – tanto temáticos quanto de cooperação, tanto territoriais quanto de compreensão da educação – não é uma tarefa fácil. Em muitos pontos é necessário olhar para o passado, para quando a educação era limitada a uma pequena elite, para reinventar rotinas e procedimentos capazes de dar reprodutibilidade a aquelas experiências em uma educação massificada e universalidade. Em outros momentos é preciso olhar para o futuro, para o acúmulo de conhecimento, em especial sobre o quanto se aprendeu sobre o processo de adquirir conhecimento, e tecnologia para amplificar e fortalecer o processo de aprendizado.

A imensidão e complexidade da tarefa não deve assustar a quem busca uma grandeza real, porque sem enfrentar esta questão qualquer gestão não conseguirá estabelecer objetivos reais e sólidos, qualquer projeto de futuro estará erigido sobre colunas frágeis. Só progrediremos de fato se formos capazes de realmente afetarmos a educação pública. E o exemplo dos territórios educadores demonstra que isto só será possível quando superarmos as visões acomodadas e reacionárias do que deve ser uma política pública. Neste caso específico, perdemos uma década, mas finalmente começamos a trilha.

Crédito da foto: SECOM – prefeitura de São Paulo

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