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O escritor tcheco Kárel Capek, que nos legou a palavra robô, publicou um conto – “Sobre a Decadência dos Tempos” –  no qual dois “homens das cavernas” lamentam as inovações dos membros mais jovens da tribo, os quais insistem em utilizar armas de pedra polida e até perdem tempo fazendo desenhos nas paredes. Para além do humor, o conto do início do século XX ainda é atual, pois toda verdadeira inovação gera reação negativa até ser entendida, mas também sempre consegue levar a humanidade à frente.

Nas últimos meses, dois episódios terríveis provocaram duras críticas contra os aplicativos de transporte e cargas. O primeiro foi o falecimento de um entregador enquanto trabalhava, vítima de um AVC e da omissão de socorro. Mais recentemente, dois motoristas de aplicativos foram assassinados durante assaltos. É urgente encontrar meios para evitar que novos incidentes lamentáveis como estes venham a acontecer, mas atribuir a culpa deles à expansão dos aplicativos não faz sentido. Até porque há formas de lidar com o problema e encontrar soluções dentro do próprio ambiente tecnológico desse mercado.

A questão da segurança dos condutores é antiga. Em mais de meio século do existência de táxis, o máximo que se conseguiu produzir de recurso para isto foi a arma ineficaz no porta-luvas. Mas, dentro do universo dos aplicativos, até pela quantidade de informação coletada e processada, há muitos outros meios de reduzir significativamente os incidentes, inclusive com a eliminação de dinheiro físico das operações, geolocalização dos veículos, ranqueamento dos usuários, conhecimento prévio dos trajetos, comunicação permanente que permite mecanismos de pânico, além de o prestador de serviços não ficar em um ponto físico vulnerável.

Da mesma forma, os acidentes de trânsito envolvendo entregadores de moto sempre foram um problema sério da cidade. Fruto da fragilidade do veículo, da pressa inerente ao serviço e das condições geralmente caóticas do trânsito, São Paulo vergonhosamente jamais conseguiu produzir alguma política capaz de evitar as centenas de mortes e ferimentos severos de motociclistas ao longo de décadas. A expansão dos serviços de entregadores de bicicleta – com dilemas similares – também resultou em mais acidentes, mas, neste caso, com o agravante da falta de infraestrutura cicloviária adequada, o que expõe os trabalhadores a risco ainda maior.

Os aplicativos de logística urbana, ao coletar dados e centralizar informações e contatos, nos permitem pela primeira vez ter um painel mais claro das informações tanto quanto um canal de comunicação eficiente com as vítimas. Da mesma forma, é possível pensar em roteirizações mais inteligentes e melhor distribuídas.

Necessário dizer que o objetivo destes argumentos não é excluir a responsabilidade das operadoras, as quais, por muitas vezes, vêm mostrando insensibilidade a estes problemas – em especial no caso do entregador, no qual a única providência da operadora foi pedir que se desse baixa no pedido para não atrasar as entregas seguintes. Somente após o ocorrido e diante da repercussão, a operadora buscou alternativas.

Muitas das medidas que poderiam ser tomadas, como apontam os motoristas, não o são por razões exclusivamente mercadológicas, diante da perspectiva de que dar mais segurança ao motorista poderia reduzir o share de mercado, o que é lamentável.

Da mesma forma, em muitos casos são as próprias operadoras que estimulam a pressa dos entregadores, aumentando o risco, ao invés de utilizar os meios e dados à disposição para reduzi-lo. Ao enxergar o entregador só como peça substituível de um mecanismo ao invés de um parceiro pelo qual se é solidariamente responsável, se nega a própria ideia de inovação contida na economia de compartilhamento.

Estes pontos levantam também outra questão, a responsabilidade coletiva da sociedade pelos problemas, que no fundo guia as opções equivocadas das operadoras. É o consumidor, ou seja a sociedade, que quer ter mais facilidade e opções ao chamar um aplicativo de transporte, assim como também é ela que quer a sua entrega o mais rápido possível, pouco se importando se tal situação irá colocar outro ser humano em risco.

Não admitir isto e colocar a responsabilidade estritamente nas costas das operadoras é também uma hipocrisia. Convém notar que a solução tecnológica que virá nas próximas décadas, talvez anos, de utilizar veículos autônomos e drones, eliminando o risco às vidas humanas, também gerará enorme impacto na sociedade, visto que hoje o que tem segurado um efeito mais nefasto do desemprego e da recessão é exatamente a possibilidade de se tornar um prestador de serviços através dos aplicativos.

A solução para evitar que estes casos lamentáveis não voltem a ocorrer virá da inteligência, da capacidade de analisar e interpretar dados para formular políticas que minimizem riscos e atendam a metas objetivas de redução de incidentes até sua eliminação. A repressão pura e simples, como no caso dos patinetes elétricos, pode atender a interesses demagógicos de espetáculo para gerar a catarse que alivia as culpas da hipocrisia mencionada acima, mas jamais será capaz de uma efetiva solução, terá o mesmo efeito dos resmungos dos homens da caverna do conto de Kapek, o de fazer rir as gerações futuras.

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