A pandemia não foi uma surpresa, ainda que tenha pego governos e sociedade despreparados para lidar com o desafio. Diversas epidemias de menor alcance, algumas inclusive de origens diferentes do coronavírus têm surgido na última década, e um dos focos das discussões da Conferência Habitat III, no Equador, e do Fórum Urbano Mundial, na Malaísia, foi “A Cidade Resiliente”, no qual um dos grandes problemas a se enfrentar era exatamente o risco crescente de pandemias em escala global.

Porém, a concretização da ameaça nos pegou no Brasil e, em particular na cidade de São Paulo, em péssimas condições para enfrentar o desafio. Além das já crônicas deficiências do sistema de saúde, ainda vivemos um momento de extrema polarização política no qual não bastam as decisões técnicas que em uma situação normal seriam suficientes. Há, pois, a necessidade de se criar um difícil consenso em um ambiente completamente poluído do ódios ideológicos e fake news disseminando informação perigosamente falsas.

omo agravante adicional, a pandemia abala negócios já fragilizados, derretendo qualquer viabilidade de investimentos em qualquer prazo. De fevereiro a abril, foram fechados 4,9 milhões de postos de trabalho, agravando a situação de desemprego que já afetava 13 milhões de trabalhadores. Há, então, uma enorme dificuldade em conseguir o consenso necessário em um cenário de profunda recessão. Em especial, muitos setores que vinham ajudando no nível de emprego mesmo com crise, como os motoristas de aplicativos e o setor de turismo e lazer, foram fortemente impactados pela pandemia eliminando boa parte deste colchão que vinha atenuando as dificuldades geradas pela crise geral da economia.

Embora tenhamos excepcionais técnicos de saúde pública, muitos dos quais estavam atentos e preparados para a situação de emergência, políticas de grande impacto não se adotam sem uma vontade política, certo grau de consenso e coragem para tomar decisões assertivas. Na cidade de São Paulo, o que acabou acontecendo foi que se tentou compensar a falta de capacidade de impor um efetivo isolamento social e contenção da circulação com experiências mirabolantes de tentativa e erro – bloqueio, rodízio ampliado, feriadão extemporâneo –, que desgatou ainda mais a força necessária a medidas efetivas e erodiu toda possibilidade de consenso pela perda de credibilidade. Gastou-se um capital político precioso em tentativas que não valiam a pena.

O anúncio atribulado de início de estudos para a reabertura das atividades, entendido pelo público como um anúncio do fim das medidas de isolamento, agravou ainda mais um cenário desastroso e qualquer política de contenção se tornou muito difícil de ser implementada. Tem-se, então, um cenário com o pior dos dois mundos: de um lado, não há mais força política e consenso para medidas que efetivamente ampliem o índice de isolamento; de outro,o desastre econômico ronda os segmentos e empreendimentos que conscientemente adotaram o isolamento.

Um exame sincero e realista das opções que existem neste momento não leva a conclusões muito otimistas. A perspectiva de imposição de um lockdown por duas semanas, que reduziria drasticamente a circulação do vírus, pode ser a solução técnica mais recomendada, mas com poucas condições políticas e operacionais de ser implementada. Exige uma coragem de enfrentar críticas que já ficou demonstrada que não se tem. Envolveria reduzir lucros de setores como o transporte coletivo, provavelmente o maior player destro da administração que dedica boa parte da sua energia em manter a lucratividade do setor e encontrar dinheiro para pagar o subsídio bilionário mesmo em tempos de crise. E, sobretudo, exigiria um grau de suporte da população difícil de se obter depois de sucessivas experiências desastradas.

Requereria, também e principalmente, uma capacidade operacional para ser imposta que, mesmo em situações normais, não se tem em uma cidade onde mais da metade do que existe é irregular em algum grau. Impor o lockdown nas regiões de São Paulo onde existem condições e não ser capaz de impô-lo na maior parte da capital, em especial na periferia, é não só inútil como reforça o cenário de “pior dos dois mundos” mencionado acima, com altíssimo custo em vidas, particularmente dos mais vulneráveis, e empregos, sobretudo nos setores mais dinâmicos e responsáveis.

A outra alternativa é menos palatável, mas ao menos viável: estabelecer um política de reabertura gradual, orientada por protocolos sanitários sólidos endossados pelos próprios setores e com a responsabilidade e garantia destes setores quanto ao seu cumprimento. Embora não pareça óbvio para quem só enxerga branco ou preto, um isolamento social mais inteligente, menos rígido, mas efetivamente aplicado é a solução cinza possível, até para que o resto dos créditos operacionais e políticos da Prefeitura possam ser utilizados na contenção efetiva do funcionamento desordenado como prioridade, deixando de premiar a indisciplina e castigar o bom senso.

Não é uma tarefa fácil, contudo. Mas é capaz de reconstruir algum grau de consenso em torno do combate à pandemia, dividindo a responsabilidade pelo controle e conscientização com a própria sociedade e, em especial, com as entidades representativas dos setores produtivos que terão a oportunidade de demonstrar que são parceiros de boa fé comprometidos com a saúde pública tanto quanto com a preservação de empregos e negócios. Restabelecer um consenso em um momento de tanta divisão e nos tornar capazes de unidade na luta contra um inimigo de todos não é pouca coisa.

É evidente que esta operação também precisa de indicadores precisos para garantir a mensuração pelos resultados de sua eficácia. Caso o comprometimento com os protocolos não tenha a necessária aderência e o número de mortos aumente em escala ao invés de ter a redução esperada, então restarão poucas alternativas a não ser um efetivo lockdown cuja força para implementação passará a ter a legitimidade da única ação possível capaz de salvar vidas. A reabertura responsável é nossa última chance de uma solução não traumática.

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