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Há pouco menos de um ano, após a grave enchente que atingiu a bacia do Tamanduateí, destaquei a necessidade de fazermos avançar a discussão sobre a Operação Urbana Consorciada Bairros do Tamanduateí, a qual prevê obras e fontes de recursos para uma solução definitiva do problema das enchentes e alagamentos. Um ano de cobranças depois e nada foi feito. Perdeu-se um tempo valioso e se manteve o alto risco para as populações da região. Quando as águas subirem, não adiantará botar a culpa em São Pedro.

A cidade de São Paulo cometeu erros graves quando de sua urbanização acelerada no século passado, no período em que passava de escassos 30 mil habitantes para quase 10 milhões. Áreas adequadas a um uso intensivo foram mantidas com baixíssima densidade enquanto as áreas de várzea foram ocupadas para abrigar os trabalhadores migrantes e imigrantes que centuplicavam o tamanho da cidade. Para financiar a infraestrutura, permitiu-se o loteamento de áreas inundáveis e a retificação dos rios. Na segunda metade do século, a canalização de córregos no fundo dos vales e as grandes avenidas completaram o cenário da tragédia.

Contudo, se é importante entender como chegamos neste ponto, é também preciso compreender que a construção de uma “cidade resiliente” com os padrões da experiência e prática mundiais consolidadas na Conferência Habitat III depende de olhar pra frente, para a tecnologia e o progresso, e não para trás, porque São Paulo não voltará a ser a cidade bucólica com três dezenas de milhares de pessoas para ser reconstruída de forma mais racional.

Cidades inclusive do porte de São Paulo convivem pelo mundo com condições desfavoráveis e riscos de desastres. As cidades japonesas sujeitas a terremotos são o grande exemplo, mas por todo o sudeste asiático há grandes cidades que também urbanizaram-se de forma vertiginosa em países em desenvolvimento – Malaísia, Indonésia, Cingapura, por exemplo – e que vêm avançando de forma significativa para protegerem-se dos riscos que se ampliarão com as mudanças climáticas.

Enquanto isto, nós aqui em São Paulo, mesmo sabendo há mais de 100 anos que as enchentes acontecerão na época das chuvas, não conseguimos ainda enfrentar de fato o problema. Mal conseguimos ser eficientes nas medidas paliativas como os piscinões. Mesmo do ponto de vista conceitual, ainda se compreendeu pouco em termos de coletivo os papéis distintos da macro e microdrenagem, dispersando esforços e focando em ações que têm pequeno impacto para realmente resolver o problema.

A renaturalização dos rios, criação de parques inundáveis, recuperação ambiental dos rios e suas margens e outras obras de macrodrenagem e da adaptação do uso e ocupação relacionados a estas ações são um programa caro, mas o único que realmente pode atingir o cerne dos problemas de macrodrenagem que respondem pela maior parte do problema das enchentes. Exatamente por isso as Operações Urbanas, todas elas focadas em bacias, preveem ou deviam prever estas obras de drenagem, até porque a ideia implícita é utilizar parte dos recursos a serem obtidos com a valorização da área para dar as condições a ela se recuperar, intensifcar e qualificar seu uso.

Em especial, em momentos nos quais a capacidade de investimento público é cada vez mais reduzida, a solução combinada de resgatar áreas cujos usos tornaram-se obsoletos para qualificá-las com os próprios recursos que a qualificação vai gerar é mais do que bem-vinda, é talvez a única solução. Fora disso, provavelmente se ficará limitado a pequenas obras improvisadas e paliativas que rapidamente serão superadas pelo crescimento das crises ambientais que só se tornarão mais fortes daqui pra frente. São, contudo, soluções de médio e longo prazo, como todas as respostas efetivas, não propostas mágicas, portanto, quanto antes se começar, menos vezes se terá de lamentar os incidentes de cada ano.

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