“O Homem acorda bom, mas o transporte público o corrompe”, diz o meme inspirado nas ideias de Rosseau e seu mito do bom selvagem. A vivência diária do transporte coletivo em São Paulo realmente pode ser uma experiência traumática, em especial para quem precisa enfrentar longos percursos. A cidade tem fracassado em promover uma política que de fato melhore a qualidade do serviços e reduza as muitas dificuldades e desconfortos.

Há algumas semanas, passei a organizar os comentários que já fazia durante os percursos diários de ônibus na minha rotina, usando critérios objetivos. Assim nasceu o “Fiscalizando o Busão”. Como além dos trajetos de ida e volta ao trabalho na Câmara sempre há um grande número de agendas pela cidade a serem cumpridas, acabo utilizando diversas linhas, permitindo uma avaliação relativamente ampla.

Infelizmente, a situação do transporte coletivo é tão precária que a imensa maioria das pessoas já se dá por contente se o ônibus esperado não demorar muito e não estiver absurdamente lotado. Um primeiro desafio foi estabelecer alguns critérios que pudessem ser objetivos e ao mesmo tempo relevantes, para ir além daquilo que deveria ser o mínimo básico de pontualidade e lotação.

Ouvindo o público e estudando os contratos das concessões de ônibus – que estabelecem como deveria ser o serviço oferecido – estou buscando um rol de fatores a serem verificados, até para ser compartilhado com outros usuários. A ideia é ser capaz não só de registrar os problemas, mas também de alguma forma transformar estes dados coletados em um elemento de política pública para de fato influenciar o sistema e produzir mudanças.

Um dos problemas de avaliar os ônibus da cidade é a enorme variação de frequência ao longo do dia. Nos horários de pico, quando todos estão indo para o trabalho/estudo, há o problema dos congestionamentos interferindo no tempo de viagem, em especial onde não há nem corredor, nem faixa exclusiva. São múltiplas as  deseconomias geradas em um sistema que opera muito acima da sua capacidade: o aumento do tempo e quantidade de paradas, as quebras causadas pela superlotação, o desconforto de se comprimir ainda mais os usuários para que todos que precisam do transporte caibam nele.

Mas São Paulo tem muita gente pegando o ônibus ao longo do dia todo, mesmo na madrugada, com os “corujões” cada vez mais demandados. Assim, nas agendas diversas em diferentes locais da cidade ao longo do dia é fácil perceber como além do problema drástico dos horários de pico há ainda uma infinidade de outros pontos que precisam ser muito melhorados. E, por incrível que pareça, cuja solução é mais simples.

A pedido do público que me acompanha nas redes sociais, tenho feito viagens em algumas linhas apontadas como mais problemáticas. E de fato o são. O conceito do “Fiscalizando o Busão” não tem nada de espetacular e demagógico. O objetivo é aproveitar os deslocamentos por ônibus que sempre fiz para, mesmo em trânsito, acrescentar mais uma tarefa de interesse público e da minha alçada como vereador. Trata-se de criar um método replicável, reunir dados e buscar através da análise deles produzir uma política pública.

Cada usuário pode ser um fiscal, de modo que a cidade construa um diagnóstico de quais são os maiores problemas nas diversas linhas. Na sequência deste diagnóstico, teremos condições de passar à ação, estabelecendo uma pressão permanente tanto sobre o poder público como sobre as concessionárias. Só assim os problemas serão resolvidos. Até porque a maioria deles está relacionada ao não cumprimento daquilo que já está estabelecido nos contratos. Esses mesmos contratos determinam que a qualidade seja levada em conta na remuneração. Mas os mecanismos para registrar as queixas são falhos, por isso Fiscalizando o Busão também se propõe a direcioná-las às autoridades por meio de uma nova plataforma tecnológica em construção pela equipe do mandato em parceria com o AppCívico. Só assim podemos dar consequências efetivas às avaliações – algo muito diferente do denuncismo vazio e da política fake que tem assombrado São Paulo.

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