A metáfora da metrópole como “Selva de Pedra” revela muito sobre o imaginário da população afetando diretamente nossa política urbana. Apenas um perfil sociológico enxerga tanto a floresta quanto a grande cidade como elementos ameaçadores: a população das pequenas cidades e da zona rural. Vivendo às margens da “área não conquistada pela civilização” por um lado e temendo o avanço da complexidade social das novas aglomerações urbanas que vão surgindo, estas populações usualmente veem ambas como uma ameaça presente a seu modo de vida.

Em um país de urbanização extremamente rápida e precária como o Brasil, onde há meio século a população ainda morava principalmente na zona rural e nas pequenas cidades, no qual o processo de urbanização que levou séculos na Europa foi realizado aqui em menos de um, esta visão de “Selva de Pedra” tem uma força excepcional.

O urbanista italiano Roberto Guiducci fala de um “Fator Urbano” – gerado pela grande concentração de talentos, ampla gama de atividades e elevada dependência dos atores – que faz com que a capacidade das cidades seja muito superior ao número de seus habitantes, o qual já é significativo. Invertendo as visões reacionárias que temem as cidades, ele aponta para elas como o espaço no qual os potenciais humanos podem se desenvolver ao máximo por conta deste fator.

Já na década de 1970, quando a Era da Informação estava apenas começando, ele sinalizava que o fim da era industrial tal como existia abriria um novo caminho para uma cidade na qual seria possível realizar este potencial, em especial pela produção de cultura e conhecimento, favorecidos por esta concentração de talentos e oportunidades.

É evidente que o fim da era industrial não elimina a indústria, mas muda o paradigma do uso intensivo de mão de obra e consumo acentuado de matéria prima para gerar produções cada vez mais escaladas – gerando uma cidade fundada no transporte de massa de longa distância tanto da mão de obra quanto das matérias primas e produtos.  Ao desaparecer, esta velha cidade industrial deixa sua cicatriz: a orla ferroviária rasgando a cidade com suas barreiras de trilhos e galpões deteriorados.

A nova indústria, intensiva em tecnologia, focada nos ganhos de produtividade e na agregação de valor, tem mais a ver com a Economia Criativa e com a necessidade de cérebros. Da mesma forma torna-se um elemento que move a metrópole em um sentido que a aproxima da cidade que realiza potenciais humanos ao invés de os consumir como sua antecessora. Ela precisa desenvolver o capital humano tanto quanto as atividades culturais, educacionais, intelectuais e artísticas que, em grande parte, só são possíveis onde o “Fator Urbano” produz a massa crítica para sua materialização, consolidação e reprodução.

Esta visão da cidade, infelizmente, está longe da maioria dos atores que exercem papel decisório nas cidades, em particular daqueles que estão no setor público. Apenas tangencialmente as políticas públicas tocam nos aspectos que podem impulsionar ou catalisar este movimento, e quando o fazem no mais das vezes é devido à pujança e vitalidade destes novos setores que vão surgindo mais do que pela visão da importância de compreender e estimular esta transformação.

A aldeia que teme a “Selva de Pedra” ainda resiste no interior da megalópole. Alguns elementos absolutamente essenciais à consolidação do “Fator Urbano”, como a tolerância e o respeito à diversidade – as quais garantem que a cidade seja o porto seguro dos talentos e das mentes inovadoras –, vêm sendo colocados em cheque, por exemplo, numa disputa política entre as relações comunitárias da aldeia e as relações societárias da cidade. Confrontar esta escalada de preconceito é não apenas uma necessidade fundada nos valores humanitários, é também uma necessidade econômica.

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