A Câmara Municipal aprovou na quarta-feira (18/09), em primeira votação, meu projeto de incentivo ao Teletrabalho. Não há dúvida de que diversas modalidades do trabalho remoto – home office, utilização de coworking etc – terão grande crescimento nas próximas décadas. Quanto mais a cidade de São Paulo tiver a compreensão sobre como esse modelo de gestão funciona e assumir a vanguarda no incentivo ao Teletrabalho, mais oportunidades terá de gerar investimentos e empregos.

Mas, para além de compreender as tendências da economia e da sociedade e estabelecer regras adequadas, garantindo os devidos direitos do empregado e da empresa, há uma outra dimensão que torna o teletrabalho fundamental para o futuro da cidade. Nas dimensões que a capital alcançou, só o estabelecimento de uma cidade policêntrica, com centralidades locais produzindo riquezas, São Paulo será capaz de descongestionar-se, eliminando as deseconomias que afetam gravemente toda a infraestrutura da capital.

Então, mais do que um passo importante para que a cidade continue à frente na liderança da economia nacional, adaptando-se à economia pós-industrial, o incentivo ao teletrabalho é necessário para a própria sobrevivência pujante da cidade, para escapar dos estrangulamentos do sistema de transporte cronicamente caro e de má qualidade, para gerar o volume de empregos necessários, para aliviar os problemas de moradia e de emissão de gases do efeito estufa gerados no trânsito.

A diretriz de adensar a cidade, aumentando a população residente nas áreas mais próximas dos hubs de transporte e áreas com grande oferta de emprego, é extremamente importante. Tanto que é tema de outro projeto de minha autoria, aquele que estimula a locação social nas áreas bem servidas de infraestrutura. Entretanto, o adensamento em si, dado o tamanho da cidade e de seus problemas, não é suficiente: precisa do complemento do incentivo ao teletrabalho, que torna os deslocamentos de parte significativa da mão de obra desnecessários enquanto cria nas centralidades periféricas novas oportunidades de geração de riqueza.

Ao contrário de muitas outras grandes cidades do mundo, São Paulo nasce com uma vocação policêntrica, mesmo que ela tenha ficado meio invisível ao longo do boom industrial das décadas de 50 a 70, que remodelou a visão da cidade. Durante boa parte da sua história, a capital foi um aglomerado de pequenas e médias centralidades – em geral organizada em torno de alguma estação de bonde ou trem, nas quais, apesar de boa parte dos moradores sair cedo para trabalhar e só voltar à noite, existia uma certa autonomia tanto social quanto econômica e política. O caso extremo é o de Santo Amaro, que foi município separado e, depois, reagrupado.

Ao contrário das metrópoles americanas, por exemplo, onde hoje se precisa enfrentar o desafio de tentar estabelecer usos mistos em áreas profundamente delimitadas e distantes, a maioria dos grandes bairros da cidade tem seus “Largos” que nos recontam esta história de vitalidade e autonomia local. Com suas igrejas simbolizando a unidade comunitária da localidade e os centros comerciais expressando a pujança da economia local. Mesmo tendo pouca atenção, ou até certa perseguição, por um urbanismo reacionário e tacanho modelado na separação de usos de outras realidades, esta pujança das economias locais pode ser vista em qualquer manhã de sábado por toda a cidade.

A vitalidade local é uma das variáveis mais importantes impulsionando as possibilidades de amplo sucesso de uma política de incentivo ao teletrabalho. Em primeiro lugar porque a adoção da modalidade de cara traz a questão de dezenas de milhares de pessoas com mais tempo livre – as três ou quatro horas que seriam passadas dentro do transporte coletivo. As grandes oportunidades de negócios que surgem de como ocupar este tempo livre para atividades culturais, educacionais, de lazer e convívio familiar, acontecerão em especial nos bairros. E, devidamente incentivadas, serão capazes de dar um salto de crescimento econômico disseminado pelas centralidades locais.

Em um segundo movimento, a existência de um maior volume de pessoas que permanecem mais tempo diurno nos bairros onde residem apresenta outra grande linha de oportunidades. Estas pessoas irão fazer suas refeições, suas pequenas compras, aquelas “compras da hora do almoço” onde residem. Quem conhece São Paulo sabe o quanto já existe um mercado amplo nos “Largos” para estas atividades, em especial refeições, mas uma significativa ampliação do mercado gerada pela permanência das pessoas nos seus bairros fará com que os negócios locais cresçam. Ao gerar mais riquezas, também empregará mais pessoas em um ciclo virtuoso de fortalecimento local.

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