Manter e gerar empregos em home office

O teletrabalho (que inclui várias formas de trabalho a distância, como o home office) já era uma tendência forte que vinha se afirmando nos últimos anos em diversos setores, apesar das resistências culturais e da inércia corporativa. A pandemia exigiu respostas rápidas e deu uma velocidade avassaladora à adoção do teletrabalho, talvez conseguindo neste curto período uma adesão à modalidade que levaria anos para ser atingida. Diariamente, vemos empresas anunciando que a maioria de suas vagas não voltarão a ser presenciais mesmo com o fim do distanciamento social. Esta nova realidade requer um olhar atento da sociedade e do poder público para produzir políticas capazes de maximizar os efeitos positivos desta nova realidade.

Ainda na tramitação do Plano Diretor e da Lei de Zoneamento, o debate apontava para o fato de dedicarmos enormes esforços para pensar uma cidade cujas premissas podiam se alterar significativamente, sendo o teletrabalho a principal destas alterações. Também se aproveitava pouco o potencial do teletrabalho para reduzir alguns dos grandes problemas crônicos da cidade, como as deseconomias de um sistema de mobilidade congestionado e a descentralização do desenvolvimento. Infelizmente, aquela oportunidade de debate foi perdida, e só pensou numa cidade convencional.

Várias das ideias discutidas à época foram então desenvolvidas em um grupo de trabalho criado por meu mandato e, posteriormente, apresentei um projeto de lei de incentivo ao teletrabalho. Aprovado em primeira votação, já foi discutido em audiência pública e agora aguarda aprovação definitiva. Tenho debatido com todos os setores da sociedade, mas a emergência da pandemia e a acelerada migração de postos para home office tornou este debate ainda mais urgente e necessário.

O teletrabalho traz vantagens significativas para o trabalhador (mais tempo livre, eliminação de deslocamentos diários, possibilidade de fazer as refeições em casa ou nas proximidades de sua casa, condições de trabalho mais confortáveis, etc); para as empresas (redução dos custos com imóveis, ganhos de produtividade, redução dos custos fixos e com transporte, entre outros) e principalmente para a cidade (redução dos deslocamentos e da poluição atmosférica, desenvolvimento das economias locais, redução das desigualdades regionais etc). Já abordei em textos anteriores estas vantagens, mas há outro desafio que se coloca agora para a sociedade e a gestão pública frente ao contexto atual: como manter na cidade estes empregos que migraram para o teletrabalho.

Tradicionalmente, o Estado Brasileiro trata os setores inovadores em expansão como o personagem da fábula trata a galinha dos ovos de ouro: em vez de incentivar o desenvolvimento sustentável para o futuro, tenta extrair o máximo, geralmente matando a galinha no processo. Não raro sacrifica a galinha para sustentar uma sobrevida a setores obsoletos que geram valores agregados decrescentes. Grande parte do intenso processo de desindustrialização pelo qual o Brasil vem passando nestas três décadas resulta desta visão míope.

Não podemos, na cidade de São Paulo, cometer este erro com relação ao home office, trabalho remoto e teletrabalho em geral. A perspectiva de uma grande migração de postos de teletrabalho para outros locais é bem real, em especial no caso dos empregos de maior qualificação e maior relevância em termos de inovação e produtividade. Lutamos contra a atratividade de municípios onde a terra é barata, os padrões aparentes de qualidade de vida são bucólicos e a menor demanda garante serviços públicos de melhor qualidade, além do fato de que qualquer arrecadação que se obtenha da migração será um dinheiro novo que entra, permitindo certa liberalidade fiscal.

Mas esta não é uma luta perdida. A tendência no mundo em relação aos grandes centros de inovação tecnológica, como o Silycon Valley por exemplo, tem sido, pelo contrário, dos profissionais mudarem para grandes centros como Nova Iorque e Los Aneles. O “fator urbano” que a grande cidade tem como atrativo, seja pelas possibilidades de convivência com pessoas interessadas nos mesmos temas, seja pela oferta de cultura e lazer, seja pelo acesso a mercados mais qualificados, é um elemento importante, mesmo que negligenciado. São Paulo tem muitos atrativos para garantir em sua plenitude a vivência de uma experiência enriquecedora do “fator urbano” e isto não pode ser negligenciado.

O segundo ponto que temos em vantagem é uma ampla oferta de mão de obra com vários diferenciais de qualificação. Qualificação esta que precisa se manter atualizada em um mundo que muda em alta velocidade. A presença do capital humano e das condições para desenvolvê-lo de forma constante tem sido até agora o grande atrativo que, mesmo durante as mais intensas guerras fiscais, vem conseguindo manter empresas na cidade.

Adicionalmente, é necessário considerar que o teletrabalho não exclui por completo atividades presenciais que sempre precisarão pontuar algumas fases do trabalho, além do networking cada vez mais essencial em um mundo que se especializa e portanto no qual o conhecimento se aprofunda em tarefas mais complexas que exigem de colaboração para serem colocadas juntas. São Paulo também tem condições excepcionais, inclusive pelas suas universidades, para ser um polo permanente de atração.

A questão fundamental, então, é quanto de visão o Poder Público – e a sociedade que é capaz de se mobilizar para influenciá-lo – resistirão à armadilha tentadora de “matar a galinha dos ovos de ouro”. O teletrabalho pode contribuir para resolver diversos problemas urbanos para os quais a cidade teria de gastar bilhões, notadamente os de mobilidade. Transformar uma parte desta fortuna em investimentos que poderá ser poupada em incentivos, ao invés de inviabilizar a solução buscando taxar e estabelecer exigências é, talvez, a mais importante decisão que a cidade pode tomar para manter e até ampliar a oferta de empregos.

Hackeando Centro aposta na inovação para transformar região central da cidade

Você imaginaria, há cinco anos, que seria possível saber o momento exato que seu ônibus passará no ponto próximo à sua casa? Ou então que empresas disponibilizariam veículos como bicicletas e patinetes compartilhadas por meio de um aplicativo para facilitar o deslocamento nas cidades?

Pois é. A inovação se mostra cada vez mais uma ferramenta essencial para a solução de vários problemas urbanos, sociais e econômicos e, em São Paulo, ela vem ganhando espaço de destaque, seja entre instituições privadas, seja no setor público ou até mesmo na associação de ambos.

É justamente dessa coalização entre as esferas pública e privada que surge o Hackeando o Centro, programa de Open City Innovation promovido pela hub de inovação ISSO! com patrocínio do Banco Original para buscar soluções transformadoras para a região central da cidade. De carona com essa nova tendência de usar a inovação como objeto de mudanças, o Hackeando o Centro vai premiar com R$ 50 mil startups que cumpram o objetivo de melhorar o centro nas áreas de segurança, design e urbanismo.

“Acreditamos que o Hackeando o Centro possa, junto com várias outras iniciativas sociais, culturais, de economia criativa, artes, gastronômicas e do próprio interesse crescente dos cidadãos pelo centro, gerar uma onda de renovação e transformação não apenas na área histórica de São Paulo, mas possivelmente no país”, comenta o sócio-fundador da ISSO!, Antonio Caldeira.

Nesta primeira edição do Hackeando o Centro, os trabalhos serão desenvolvidos sob a lógica da tecnologia aliada à segurança – SecureTech –, com foco na região do Anhangabaú e arredores. Os startups, hackers, designers e amantes da cidade, porém, precisam ter algum histórico de estudo ou trabalho em competências relacionadas com o gerenciamento de espaços, como profissionais e estudantes das áreas de Arquitetura, Design, Engenharias, Gestão de Projetos e Políticas Públicas, Segurança Pública, Tecnologia da Informação e Comunicação para poderem participar.

“Esperamos ter 120 inscritos para, dentre eles, selecionar 10 iniciativas até o dia 2 de dezembro e, em janeiro, escolher os 3 vencedores que seguirão conosco até março, quando se divulgará o vencedor”, conta Caldeira. As inscrições vão até o dia 25, sexta-feira, e podem ser feitas por este link.

Inspiração da administração pública

Maratona de desenvolvimento apoiada pelo vereador Police que acontece desde 2017 e que tem como objetivo criar soluções tecnológicas para a cidade de São Paulo, o Hack in Sampa é, para

Antonio Caldeira, um dos exemplos a serem seguidos quando o assunto é inovação para transformar a cidade. “Foi um dos eventos que nos inspirou, sendo muito louvável ver uma iniciativa de inovação sendo gestada dentro da administração pública municipal”, afirma.

Na última edição, o Hack in Sampa reuniu 57 desenvolvedores na Câmara Municipal para buscar ferramentas que dessem maior eficácia e eficiência ao transporte público em São Pauo. O vencedor da hackathona foi o Bus Plus, um aplicativo que organiza as demandas de passageiros dos ônibus, preenchendo os veículos vazios e ociosos de modo a combater o desperdício e a subutilização. Para o sócio-fundador da ISSO!, o evento “confirma a importância de coordenação do público e do privado na solução de temas relativos à sociedade”.

Além do Hack in Sampa, o vereador Police ainda promove outras iniciativas do tipo, como o Tech Cycle Challenge, que tem como foco a busca por soluções no universo das bicicletas. Neste ano, o hackathon premiou a Bike Go, plataforma que usa inteligência artificial e tecnologia na nuvem para auxiliar e incentivar novos ciclistas que ainda não experimentaram a bicicleta a optar pelo modal como meio de transporte.

Emenda com foco em Inovação, Tecnologia e Economia Criativa é aprovada na LDO

O vereador Police Neto apresentou um conjunto de propostas à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) do município de São Paulo para o exercício de 2020 que, juntas, somam R$ 16 milhões em investimentos para a cidade. Entre as sugestões aprovadas no relatório final da LDO estão a implementação do programa de Incentivo ao Teletrabalho, no valor R$ 5 milhões; e do programa de Economia Autoral e Criativa descentralizada, na quantia de R$ 1 milhão. O objetivo estratégico das propostas é fortalecer a atividade econômica com foco em Inovação, Tecnologia e Economia Criativa, setores importantes para o desenvolvimento de São Paulo.

Nesse mesmo contexto, a LDO destina recursos para o Polo de Desenvolvimento da Zona Norte, projeto de lei de autoria do vereador que já foi aprovado na Comissão de Constituição de Justiça e avança na Câmara. “Sugerimos ao governo investir R$ 10 milhões nesse projeto dada a sua enorme capacidade de gerar emprego e renda, além de desenvolver econômica e socialmente as regiões norte e noroeste, ainda muito negligenciadas pela cidade”, diz o vereador.

Police enfatiza que o projeto do Polo de Desenvolvimento da Zona Norte atende a uma determinação do Plano Diretor Estratégico da cidade e que, por isso, requer uma atenção especial do poder público. “Está comprovada não só a viabilidade, mas a necessidade de atuarmos naquela região para incentivar a instalação de empresas por meio de isenções fiscais e urbanísticas, pois só com oportunidades de trabalho e desenvolvimento vamos mudar a realidade desses bairros”, afirma.

Incentivo à Economia Criativa

Tema não abordado por nenhum outro parlamentar, a economia criativa se destaca na agenda de Police para o próximo ano. Ainda que o mandato não tenha um projeto de lei pronto sobre o assunto, o parlamentar sempre esteve envolvido com empreendedores e enxerga neles grandes possibilidades para o desenvolvimento econômico da cidade. “Vamos nos reunir com quem desenvolve a economia criativa para ouvi-los e compreender suas reais necessidades. O que tudo indica é que nosso projeto de lei contemplará incentivos fiscais que facilitem o exercício da atividade e propostas que estimulem os trabalhadores a se regularizarem para terem acesso aos direitos que lhes cabem”, adianta Police.

O vereador lembra que, por diversas vezes, seu mandato contribuiu com emendas parlamentares para a realização de eventos destinados à classe empreendedora. “Nos últimos anos, patrocinamos a infraestrutura de feiras como a Fair&Sale, por exemplo. Hoje, felizmente, este evento já consegue caminhar com as próprias pernas e é realizado em diversos pontos de São Paulo, mas sabemos que tivemos uma contribuição importante para que a feira pudesse atingir este patamar e se consolidar na agenda paulistana”, ressalta.

A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) define as metas fiscais e prioridades da administração pública municipal e orienta a elaboração da Lei Orçamentária Anual (LOA) para estimar as receitas e fixar as despesas do Executivo para o exercício de 2020, que giram em torno de R$ 65,7 bilhões. A LDO foi aprovada por meio de votação simbólica na sessão plenária de quarta-feira (26/6). Agora, o projeto segue para a sanção do Executivo.

Foto: André Moura