E os barões do transportes continuam numa boa…

A mobilidade urbana, especialmente quanto ao transporte coletivo, é um dos problemas centrais da cidade. Durante a campanha eleitoral até se chegou a arranhar o tema, mas sempre com propostas genéricas e vagas de “combater a máfia do transporte” sem dizer muito bem como. Em 2020, já gastamos mais de R$ 2,87 bilhões (veja a tabela abaixo) com o subsídio a um sistema péssimo, e até o final do ano a conta passará de R$ 3 bi – quase R$ 8 bi se também levarmos em conta as tarifas pagas diretamente pelos usuários na catraca, além do subsídio, quase 5% do orçamento. E os barões afirmam que querem ainda mais.

Já comentei o absurdo do subsídio que aumentou no pico da pandemia porque o número de passageiros diminuiu, sem que os custos tivessem caído, só que a despesa aumentou ainda mais quando o número de passageiros voltou à subir, próximo da realidade anterior à pandemia. Esse mistério ainda precisa ser esclarecido pelos barões do transporte e seus comparsas. Assim, em janeiro e fevereiro, sem pandemia e com movimento baixo, pagou-se R$ 184 e 189 milhões em subsídio; em maio, no pico da pandemia, foram gastos R$ 287 milhões e, em setembro, já em ritmo de retorno à normalidade, os barões do transporte ganharam R$ 322 milhões do contribuinte. Qual é a lógica? Não se sabe.

Antes mesmo de discutir se os valores do subsídio e da tarifa são altos ou baixos é preciso constatar o óbvio: a qualidade do serviço que nos custa tão caro é ruim. E é muito baixa inclusive em função dos próprios termos do contrato acordado entre os barões do transporte e as duas últimas gestões da prefeitura – igualmente responsáveis por ele. Qualquer um que pegue ônibus sabe que os veículos são sujos, andam sobrelotados, atrasam, jamais param junto à guia como deveriam, são desconfortáveis, são altamente poluentes, têm equipamentos de ar-condicionado que muitas vezes estão desligados ou não funcionam, não oferecem nenhuma previsibilidade a quem depende deles para ser pontual entre outras muitas queixas que poderíamos listar aqui.

E não adianta falar de custos extras ou equilíbrio econômico-financeiro, pois, como diz o ditado, “o combinado não é caro”, e estes pontos todos levantados acima – exceto talvez a poluição, que foi liberada por mais dez anos por decisão da Câmara (não com meu voto, claro) – não deveriam acontecer se o contrato fosse cumprido de fato.

A verdade é que o elemento principal que faz o subsídio explodir é a queda de demanda. Fator este que só vai aumentar com a manutenção de muitos postos de trabalho em home office, a expansão da rede metroferroviária e o cumprimento da diretriz do Plano Diretor de reduzir deslocamentos aproximando o local de moradia, trabalho e estudo. As tentativas dos barões de limitar o transporte por aplicativos só mostra o grau da ineficiência das empresas de ônibus, a ponto de sequer conseguirem concorrer com o transporte individual em custo e demanda. Situação que só não é pior por conta do intenso lobby que elas têm efetuado para impedir a operação do ônibus sob demanda em diversas cidades, inclusive em São Paulo.

Socializar o prejuízo

Os barões do transporte tentam empurrar o problema de ineficiência e falta de competitividade deles para o poder público, socializando os prejuízos. No contrato desastrado montado pelas gestões Haddad/Covas se conseguiu parte desta socialização dos prejuízos, que explodiu na cara das finanças municipais deste ano, sem que exista nenhum controle efetivo da qualidade que deveria ser a contrapartida nem esforço dos empresários em investir em um serviço que lhes devolva a competitividade.

Seria como se alguém montasse uma lanchonete para fornecer refeições à Prefeitura e dissesse: “Vocês estão obrigados a comprar mil lanches por dia, mesmo se ninguém comer os lanches porque são mal feitos, gordurosos, com carne de duvidosa e caros.” E, para garantir a compra, a Prefeitura, ao invés de cobrar qualidade, mandasse fechar todas as outras lanchonetes da vizinhança para obrigar todo mundo a comprar daquela “patrocinada”.

Desde 2006, quando o atual sistema de subsídio, negociado pela ex-prefeita Marta Suplicy e as empresas passou a vigorar, o município já gastou, em valores atualizados, R$ 30 bilhões (ver tabela), com um aumento significativo da despesa em especial nas duas últimas gestões. Muito deste valor, equivalente ao montante disponível para investimento de quase 5 orçamentos anuais, poderia ter sido investido em melhorias estruturais do sistema – corredores, linhas metroviárias, programas de habitação próximos de locais com oferta de emprego, desenvolvimento regional que gerasse empregos onde há alta densidade demográfica –, mas só serviram para socializar prejuízos e garantir os lucros privados, perpetuando um sistema que não precisa melhorar para continuar lucrando.