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Uma outra política é possível

O filósofo italiano Norberto Bobbio destacou em “O Futuro da Democracia: Uma Defesa das Regras do Jogo” o quanto as promessas não cumpridas da democracia jogavam contra ela. O filósofo elenca 6 promessas não cumpridas: (1) o nascimento de uma sociedade pluralista; (2) a decisão baseada no interesse coletivo; (3) o fim do poder oligárquico; (4) a ampliação dos espaços de participação; (5) o fim do poder invisível dos grandes interesses e, ao final, a educação do cidadão para a democracia.          

A crise institucional pela qual temos passado, em especial desde as manifestações de 2013, não só não tem contribuído para cumprir essas promessas como, em muitos aspectos, as tem agravado. Conforme se amplia a desconfiança em relação à democracia, em alguns casos extremos até chegando ao ódio, mais se fortalece o afastamento das instituições de seus compromissos históricos e políticos.

Uma das consequências deste processo é que, ao mesmo tempo, se fortalecem todos os movimentos que criam os vícios e mais se enfraquece o movimento que busca a necessária renovação que voltaria a alinhar os valores das instituições aos princípios democráticos. Isso porque aqueles que se alinham ao poder e aos grandes interesses e oligarquias têm a contrapartida dos recursos e currais eleitorais deles, enquanto aqueles que têm de buscar seus votos pela persuasão enfrentam um eleitor que pouco distingue as práticas de um e outro e prefere a condenação taxativa e generalizada.

Um bom exemplo recente deste processo foram as duas últimas votações da Câmara Municipal em 2020. Em duas decisões lastimáveis e totalmente desconectadas do interesse da população, uma ampla maioria de vereadores aprovou, no dia 22, a extinção da gratuidade nos ônibus para pessoas entre 60 e 65 anos e, no dia 23, aprovou um aumento de 46% no teto salarial do funcionalismo. Ainda que as votações tenham repercutido mal, aqueles que aprovaram estas medidas terão as vantagens junto ao governo de quem manifestou sua obediência. Já aqueles que ousaram enfrentar estas decisões são jogados pela opinião pú0blica na vala comum de quem nem busca a informação sobre como cada um votou.

Ainda assim, continuo com a firme convicção de que é possível fazer diferente, é possível ainda fazer da política um espaço no qual o interesse público pode ser defendido, no qual podem ser formuladas políticas inovadoras que harmonizem interesses diversos e construam uma cidade melhor. Dediquei meus mandatos a esta concepção, esforçando-me para manter um canal de permeabilidade com a sociedade.

Este só é um caminho possível com esperança e alegria, com a profunda percepção de que a democracia é uma ideia forte demais para ser aniquilada mesmo pelas elites políticas que fazem troça dela. Fundada também na crença de que a população irá sempre aprender a cada eleição e as suas consequências e que, para avançarmos mais, é necessário confiar e aprimorar esta capacidade de discernimento.    

Por fim, esforcei-me para que, para além da defesa dos procedimentos corretos, sejamos capazes de produzir soluções e respostas eficientes para os grandes e pequenos problemas da cidade. Sem estes resultados, só se aumenta o discurso vazio das promessas não cumpridas.

É fundamental garantir que a democracia seja capaz, sim, de produzir boas respostas. Assim construímos a mais sólida legislação no país referente ao controle da Função Social da Propriedade, garantindo quase 3 milhões de metros quadrados disponíveis para a produção de unidades habitacionais voltadas à população de baixa renda e criamos um programa de Locação Social buscando unificar interesses na produção de uma cidade mais sustentável. Assim também enfrentamos os barões do transporte (que mantém a cidade refém de sua ineficiência e ganância), em especial com a defesa do Ônibus sob Demanda, e garantimos os empregos e o direito de escolha dos usuários defendendo com veemência o serviço de transporte por aplicativo e  os motoristas de aplicativos. Assim ainda enfrentamos o grande ralo da corrupção e do desperdício com uma legislação moderna, também  compreendemos e incentivamos o teletrabalho como importante tendência que ainda vai gerar mudanças na cidade no futuro. Enfim, lutamos para fazer São Paulo e as instituições avançarem, tivemos vitórias e derrotas, mas, com certeza, ao longo do tempo as vitórias se consolidarão e muitas derrotas serão revertidas, porque baseadas em um diagnóstico sério das necessidades paulistanas. A luta não vai parar, porque ela pode se beneficiar da voz e do voto no parlamento, mas sua raiz é a crença não na possibilidade, mas na necessidade de construir uma cidade mais justa, inteligente e sustentável, na qual todos os cidadãos podem alcançar todo o seu potencial.

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