Um dos mais importantes escritores católicos do Século XX, G.K. Chesterton, destacou em um de seus ensaios que as grandes verdades podem ser reconhecidas por persistirem e enfrentarem resistências ao longo do tempo. Assim, ele diz, por exemplo: “a Cristandade, que em seus tempos ancestrais lutou contra os maniqueus porque eles não acreditavam em nada, a não ser no espírito, tem agora que brigar com os maniqueus porque eles não acreditam em nada senão na matéria”.

Não é preciso ser o padre Brown, arguto padre-detetive que é o personagem mais famoso de Chesterton, para verificar a importância destas reflexões para a Campanha da Fraternidade deste ano, que tem como tema: “Fraternidade e Políticas Públicas”. Há muitas instâncias a integrar para se conseguir compreender e vivenciar o espírito da campanha.  Sem esta integração, corre-se o risco não só de prejudicar o objetivo dela como ainda de produzir o seu contrário.

Para a dimensão material de assegurar as condições de dignidade a todos, há a dimensão espiritual da solidariedade. Para a preocupação em garantir a plena vigência das políticas públicas, se requer o compromisso na participação cívica que constrói tais polítcas, as implementam e avaliam. Há um ponto de equilíbrio, uma regra áurea permeando as dimensões espirituais e materiais da campanha que só fazem pleno sentido quando compreendidas simultaneamente, condição essencial para seu sucesso.

A própria referência bíblica que, como costumeiramente, delineia os valores que permeiam a CF, destaca Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Isaias 1, 27). Ou seja, estabelece um caminho do meio, daquilo que é direito e justo, que se opõe tanto à deprivação dos cidadãos daquilo que é necessário a sua dignidade quanto a um amplo demandismo vazio e insaciável no qual muitas vezes se converte um ativismo que busca manter as almas sempre sedentas e insatisfeitas.

Este equilíbrio sem dúvida é mais fácil de ser mencionado genericamente do que obtido concretamente, mas a própria metodologia da Campanha da Fraternidade traz há anos uma orientação muito esclarecedora em sua diretriz: “ver, julgar, agir”. Também para a adequada formulação de políticas públicas que sejam justas e restabeleçam os direitos individuais e coletivos estes três passos são essenciais.

Não se produz uma política pública eficiente sem que exista um diagnóstico do problema em suas causas e origens, não apenas nas consequências. Assim, o chamado da CF nos comanda a estudar, avaliar com cuidado e precisão, investigar a fundo os problemas que se deseja enfrentar, ao invés de apenas fazer proposições rasas ou desconectadas da realidade. Mais do que nas elocuções grandiloquentes, as boas intenções estão na compreensão do problema como primeira fase da sua resolução. Como já diz a Palavra, só a Verdade liberta e procurar a verdade não só no campo teológico, mas também em todas as esferas de ação, ainda mais na política, é parte fundamental da vida de quem busca o caminho dessa Palavra.

É evidente, porém, que não é possível se ater exclusivamente ao diagnóstico, há inclusive uma distorção na formulação de políticas públicas bem conhecida que consiste exatamente em consumir ano após ano em infindáveis diagnósticos, muitas vezes apenas alimentando vaidades acadêmicas ou coisas ainda piores, sem trazer benefício algum aos irmãos e irmãs vítimas da injustiça e da deprivação de direitos. Assim chegamos ao segundo termo da diretriz: Julgar.

Julgar nos impõe a necessidade de tomar decisões, fazer escolhas que nem sempre são fáceis, novamente à luz da epígrafe bíblica da campanha, decidir sobre o que é justo, assim como estabelecer prioridades sobre os direitos que devem ser restabelecidos, à luz dos evangelhos e da doutrina. É evidente que definir prioridades não significa abandonar a luta contra o conjunto de injustiças e injustiçados, mas estabelecer um plano de ação que leve das situações mais urgentes às ameaças menos sérias, daquelas para as quais dispomos de recursos para aquelas nas quais um salto de qualidade na solidariedade será necessária.

Por fim existe o desafio de Agir, não ficar restrito às boas intenções, belos planos e palavras bonitas, mas ser capaz de colocar estas políticas em andamento. Implícito a este passo está a necessidade de avaliar o que se produz com cada política. Esta avaliação tem ela própria duas dimensões distintas, por um lado é preciso garantir que os recursos sejam aplicados realmente na consecução dos objetivos de nosso solene compromisso com uma vida cristã, pois qualquer desvio neste campo implica também em uma negação dos mais elevados objetivos da campanha, mas também de uma dimensão mais sutil de avaliação que é verificar que a política cumpre seus objetivos com eficiência.

Quanto mais se busca as necessárias soluções inovadoras para restabelecer a justiça e reparar direitos mais necessários é um sistema de avaliação eficaz porque propor novas respostas exige a demonstração que estas respostas são realmente mais eficientes que as anteriores. Em uma época em que as boas intenções se contaminam costumeiramente como o “novismo” e o “alemismo” que legitima propostas apenas por serem “inovadoras”, muitas vezes desalojando práticas seculares bem sucedidas como as que integram as tradições da nossa Igreja, a avaliação dos resultados esperados frente aos recursos alocados – e que portanto foram recursos retirados de outras ações – é absolutamente essencial para que o conceito de justiça seja contemplado.

Assim, o desafio para nossas comunidades se integrarem ao processo de formulação, implementação e avaliação de políticas públicas requer por um lado um profundo resgate das qualidades espirituais que a sociedade moderna, amorfa e desprovida de valores universais, tenta dissolver, buscando resgatar aquela profunda solidariedade e fraternidade que nos caracteriza, mas ao mesmo tempo exige um esforço para elevar o nível de consciência desta comunidade que lhes apure o senso de justiça para distinguir entre o ilusório discurso demagógico e a efetiva preocupação com o conjunto da humanidade. Sem a integração das dimensões espirituais e materiais, sem o impulso solidário e o conhecimento técnico, não se conseguirá a justiça almejada e, até, se poderá incentivar a injustiça.

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